EPHEMERON

Vídeo: Ephemeron, o Tempo Hýbris .

 
É preciso que haja, nas coisas representadas,
o murmúrio insistente da semelhança; 
é preciso que haja, na representação,
o recôndito sempre possível da imaginação. 
(FOUCAUlT, 2002, p. 95)

 

O projeto Ephemeron foi constituído pela formação de um grupo para a realização de um audiovisual. O intento desta escrita é uma reflexão sobre o processo, documentando a experiência do fazer artístico através de relatos processuais, numa deambulação fragmentada que a memória definiu como relevante.
Em abril de 2012, dei início ao projeto Ephemeron. Uma produção audiovisual autoral em colaboração com outros profissionais de diferentes áreas. Foi necessário criar uma atmosfera ficcional no vídeo, para poder salientar sua narrativa que visava a dissociação do tempo real. O processo de construção do pensamento – a maturação das ideias em sua origem – se baseou na efemeridade de diferentes tempos e indivíduos. Dentro desta narrativa foram feitas ligações estruturais hipotéticas entre a existência de seres vivos – Efemérida, inseto que vive somente um dia – em comparação a nós (Humanos). Surgem, nesta atmosfera fabuladora, duas criaturas híbridas que dentro de sua lógica estrutural passam por etapas distintas de suas vidas no decorrer de um dia. A ideia era expor no vídeo a experiência existencial deste ciclo.
Os “lugares de não estar” são os ambientes e arquiteturas que perderam suas funcionalidades originais. Lugares ressignificados por mim, onde as cenas foram executadas e são de extrema importância para a narrativa ficcional, pois tratam-se de lugares que tem fins muito específicos, como a ponte férrea ainda ativa, e a ponte adjunta da rodovia, hoje desativada, ambas pertencentes ao limite entre as cidades (Pelotas e Rio Grande/RS). Ter escolhido estas estruturas arquitetônicas e destinado outra percepção a elas, que não a de origem, favoreceu o interesse de contemplar a narrativa por uma dimensão ficcional de espaço, seguindo portanto, a intenção de que nela não houvesse também a exatidão do tempo real.
Meu processo criativo inicia com o imaginário visual, que tende a subverter a ideia do próprio ambiente arquitetural, pois a ação definida pela narrativa extrapola o lugar existente, mesclando os traços reais com ficcionais. O termo tempo Hýbris* surgiu da necessidade de uma nomenclatura que abarcasse o sentido de transgressão temporal na narrativa, o “micro universo” destes seres, responsáveis pelo invento de uma outra forma de temporalidade.
Foi definido que neste tempo Hýbris, dois seres híbridos (macho e fêmea) entre Humanos e Efeméridas, interagissem de forma plena em torno da concepção de um único dia de vida, e esses momentos seriam sua completa existência. A veracidade estética enquanto forma híbrida desses seres não era o fator fundamental, embora eu procurasse aproximações visuais. Me interessava mais a performance pela semelhança simbólica e metafórica. O processual ficcional dentro da narrativa a forjar o ciclo efêmero da vida.

Tempo Hýbris é uma associação inventada por mim para dar ênfase no sentido de criação/transgressão do tempo real. Na tentativa de desobedecer, violar, exceder, ultrapassar os limites da narrativa ficcional na arte.
 
(Trecho extraído da dissertação de Mestrado “EPHEMERONUma experiência poética audiovisual autoral e colaborativa.” AMARANTE, 2015.)