CORPUS PENDULUS P-XIII’

 
 
O texto a seguir é uma tentativa de transpor através da escrita, o que experiencio com a performance.
Inspirada no texto ao qual tenho plena admiração, por ter escrito, apesar da clausura das palavras.
Performance artística e o tempo de Maria Beatriz de Medeiros, a quem dedico esta pequena escrita PerFormada.
Me senti tão imersa em sua escrita, que não consegui me afastar dela.
Aceitei esta escrita como uma experiência, resultante do impacto ressonante das suas palavras.
Absorvo, improviso e compartilho o ineditismo deste instante.  
 

 

PERFORMANCE em: a clausura das palavras.

Era uma vez uma mulher que se divertia em correr perigos mortais.
Essa mulher era artista e praticava, sobretudo, a linguagem artística performance.
Maria Beatriz de Medeiros
Performance artística e tempo.
 
 

Não é o bastante imaginar, é preciso criar conexões e executá-las.

Mas existe uma forma textual que não engesse os sentidos?

Ainda não sei, as palavras passarão por mim PerFormadas.

A experiência. A memória corpórea.

Como posso escrever sobre performance arte?

Medeiros pergunta: “A palavra é a cegueira dos movimentos?”

Expor, transpor pontos de vista. Corpo em ação, movimentos no espaço.

Ações que carregam sentidos, estes que geram reflexões, e por conseguinte estreitam-se em significados.

Estes que limitam os mesmos sentidos, os direcionando a uma formatação de entendimentos, que se não fossem influenciados, explodiriam em variações. 

Me diga, o quanto de sentido eu afogo explicando uma performance?

De que modo transmuto em palavras, este ato presencial?

Onde encontro na escrita a feitura vivencial do momento? 

Um ato impregnado de instantes. Vestígios, fragmentos, inúmeras porções de sentidos.

Vagueio entre as palavras à procura do vão. Em vão, passo a percepção do corpo que sentiu, esteve presente no ato da performance. Imaginar, criar e executar a ação me alimenta os sentidos da experiência.

Sendo performance corpo vivo em seu instante, seria possível fragmentar este tempo, este corpo, esta memória? “Aquele que constrói um discurso sobre uma ação a aniquila. No texto, a performance é esfolada. Fora de seu tempo, ela é esvaziada e enclausurada em reproduções fotográficas ou vídeos.” (MEDEIROS, 2007, p.02) De que forma conseguiremos com as palavras alcançar parte dessa fumaça de linguagens?

A artista Maria Beatriz Medeiros em Performance artística e tempo, relata sua experiência em escrever um trabalho teórico sobre esta prática efêmera, e o quanto isso a desfavorece, visto que, muito se perde dela ao tentar enquadrar parâmetros lineares em uma arte que nasceu do improviso.

Saio à procura de tentativas de rizomatização do tempo, através dessa performatividade escolhida, editada, tendo absoluta consciência da proporção reduzida imposta pelos limites.

“A performance é processo puro. E se dela falarmos, estaremos sendo sempre parciais: cada um de sua perspectiva pouca. Essa arte é um reflexo de percepções de um imaginário particular, tudo isso em um momento único e preciso.
A palavra, que pretende a compreensão universal de uma ação artística efêmera, ou não, será sempre geradora de direito de exclusão.” (MEDEIROS, 2007, p. 01)
 

Sigo assim minha escrita artística em estado de apneia, suspendendo o (ou no) ar voluntariamente, na tentativa de sobrevivência, “a sobrevivência do trabalho artístico”, como refere-se Bia Medeiros.

Fazer dessas palavras performance, me parece o menos invasivo.

Improviso em exercício da memória, relato experiencial do ato criativo.

Isso até me parece possível.

Inspira, expira e segura que vamos pra próxima suspensão.

A do corpo.

 

 

Corpus Pendulus P-XIII’
A performance me prendeu pela carne e o tempo pela arte: fragmentos de experiência corpórea efêmera fixados na memória.

 

Fragmentos de experiência corpórea efêmera fixados na memória.

Corporeidade física, psíquica e universal.

Percepções fenomenológicas, corpo em movimento sentindo o espaço.

O corpo produz subjetividades, cria possíveis verdades.

Teria o mesmo propósito se o corpo não sentisse dor?

O quanto de dor o corpo é capaz de suportar?

Nem a dor transcendental como no rito de Fakir Musafar,

nem tão pouco os limites do corpo de Stelarc.

A dor da artista talvez não se iguale a tantas outras No limiar da vida de Ingmar Bergman.

Esta pulsante agonia, que nada mais é que um prazer distorcido, temeroso despertar do corpo.

São vinte e quatro segundos de dor intensa, penetrados na pele que se desloca, para logo abrandar a estesia.

Corpo que transborda energia vital, em um sofro.

Tempo a favor, sendo efêmero logo acaba.

De imediato movimentar o corpo, pois não há mais nada que os pés alcancem.

Pendular, circular, torcer e flexionar, a dança solo nos ares.

Não há outra intenção que não seja a experiência sensorial e perceptual.

Somente o corpo não era o suficiente, aderi a ele uma extensão encarnada e volúvel.

Reverberação luminosa no ar, contrastando o horizonte ao meu redor.

Sempre que pela ponte passava, me via como em um pêndulo sob ela.

Mal sabia nestes tempos, que o pêndulo à oscilar seria o meu próprio corpo.

O equilíbrio entre as pontes.

O sibilar do vento e suas variações de intensidade na altura em que eu estava, era o único som possível a me abraçar.

Nada se rompeu. Nem a pele nem o aço. Os ganchos se mantiveram firmes durante a transição.

O ar absorvido no ato deixou meu corpo ao passar dos dias.

Cicatrizes parceiras por toda vida, como todas as outras que mantenho involuntariamente.

A performance me prendeu pela carne.

E o tempo pela arte.

(AMARANTE, 2015)